domingo, 3 de julho de 2016

Angústia - Anton Tchekhóv


Um bom conto para mim é aquele que desperta na gente o mesmo impacto que um romance de 500 páginas. Contos assim permanece nos nossos pensamentos durante dias e nos coloca em reflexão com questões cotidianas que se mostram para nós de outra maneira após a leitura do conto. Alguns dos contos que li e aos quais reagi dessa forma foram escritos por Tchekhóv. Tanto as peças teatrais quanto os contos desse escritor me fazem pensar que as situações da vida são singulares e que por várias vezes não nos cabe estabelecer julgamentos.

Angústia entrou para o rol dos melhores contos que já li. É um conto que oscila entre a delicadeza da forma contada e a melancolia que o envolve. Nós acompanhamos momentos da vida de um homem que está sofrendo pela morte do filho e não tem ninguém para desabafar ou que lhe escute. Começamos a sentir essa apreensão e angústia da personagem que só queria encontrar um colo para chorar. Por ser um cacheiro um de seus passageiros chega a notar o comportamento diferente dele naquele dia, mas está muito ocupado para ouvir o acontecimento.

O conto foi escrito no século XIX e nos é tão presente. Às vezes não queremos tanto, mas acabamos nos diluindo no tanto acelerado que vivemos hoje. É um conto muito bonito por conta da sutileza do tema abordado, e principalmente, pela escrita de Tchekhóv, direta, simples e ao mesmo tempo abrangente e reflexiva.
 
Conto: Angústia de Anton Tchekhóv 
Lido numa versão disponibilizada da internet no scribd.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O blog está de volta!

Esses dias senti falta de voltar a escrever, interagir mais aqui no blog. Havia deixado ele de lado por conta da dissertação e também percebia que os textos não estavam tendo uma boa qualidade. Mas, hoje decidi tirar a poeira do blog. Voltarei a publicar por aqui, tentando manter alguma regularidade e fugindo um pouco da fórmula de resenhas que vinha fazendo. Vocês vão notar  que o nome do blog mudou, simplesmente porque mudei e não acho que o que escrevo aqui sejam bem resenhas, mas simples comentários dos livros que leio. Alguns textos antigos serão excluídos, uns porque acho que estão mau escritos e outros porque são de livros que desejo reler e aí então farei novos textos. O visual também passará por mudanças em breve e sábado tem postagem nova. Espero que quem acompanha os textos desse espaço continue por aqui e deixo boas vindas aos novos visitadores!

Izabela

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Uma Semana para se Perder - Tessa Dare


A vila de veraneio da Inglaterra Spindle Cove é o cenário principal desse livro que faz parte de uma série composta por quatro histórias independentes da autora americana Tessa Dare. Minerva Highwood, suas duas irmãs (Diana e Charlotte) e a mãe foram passar o verão nessa vila, mas estenderam a estadia na cidade por motivos de: arranjar um casamento. A mãe das jovens tinha a esperança de que o jovem lorde Payne iria pedir em casamento sua filha mais velha, Diana. Colin (o lorde Payne) estava em Spindle Cove para reger um pequeno esquadrão em caso de guerra. A ida de Colin para Spindle Cove havia sido também uma estratégia usada por seu primo e tutor Bram como última chance de ver Colin mudar a vida desregrada que tinha.
Conhecendo a fama libertina de Colin e, temendo o sofrimento que um provável casamento com ele poderia causar a Diana, Minerva decide propor ao lorde que fugissem juntos fazendo parecer que iriam de casar. Mas na verdade sua ideia era participar de um Simpósio de Geologia em Edimburgo para apresentar uma descoberta científica que Minerva havia feito. Certa de que sua descoberta iria ganhar o prêmio do evento, ela ofereceu entregar todo o valor a Colin se ele não se casasse com a irmã. Negando-se no início a embarcar nessa aventura, Colin termina por se ver obrigado a acompanhar Minerva para lhe protejer e com a esperança de que ela mudasse de ideia no meio do caminho. Claro que isso não acontece e o que acompanhamos durante a leitura do livro são as peripécias enfrentadas pelos dois no caminho para o evento.
Minerva sempre se achou inferior as irmãs e as jovens da época. Usava óculos, era estudiosa demais, meio atrapalhada. Não se encaixava nos padrões de uma moça para casar digamos assim. Nunca foi com a cara de Colin, e ele meio que por pirraça a provocava constantemente. E nesse jogo de cão e gato, durante a viagem de uma semana rumo ao simpósio os dois vão acabar descobrindo uma atração entre os dois que colocam a prova todas as primeiras impressões que um tinha sobre o outro.
A empatia pelo mocinho da trama foi imediata porque desde o começo vemos o Colin para além da capa libertino que a vila conhece. Percebemos alguém que esconde uma dor profunda, medos e certa fragilidade.  Vemos que ele se preocupa com os outros e tenta ajudar como pode a quem precisa. Minerva também cativa o leitor pela forma como ela conseguem ser ao mesmo tempo tão inexperiente em alguns assuntos e tão madura em outros. Os dois de uma forma improvável passam se compreender nas suas diferenças, descobrindo no outro o lado bom.
A narrativa de Tessa Dare envolve desde a primeira linha, e o texto transcorre com fluidez. Gostei bastante da trama ser construída por capítulos intercalados entre as intempéries da viagem de Colin e Minerva e a reação das pessoas sobre a fuga deles. Inclusive, o livro lança no ar outro romance entre a senhorita Taylor e o capitão Thorbe. O perfil desses dois me lembrou muito a Elizabeth Bennet e o Mr. Darcy de Orgulho e Preconceito. Parece que a história dos dois será a próxima da série e espero que logo seja traduzida para ver o que acontecerá com o tarrancudo Thorbe e a destemida Taylor.
O livro contém ainda passagens muito engraçadas e toca de leve na condição limitada da mulher na sociedade inglesa. Inteligente, doce, com pitadas fortes de paixão e uma pincelada de Jane Austen, são algumas das características que para mim definiriam bem Uma semana para se perder. Ele é um daqueles livros que fazem você passar horas agradáveis enquanto lê, dando pequenos suspiros pelo casal e torcendo para que tudo no fim realmente acabe bem.


Notas sobre o exemplar lido:
Tradução: A C Reis
Título original: A week to be Wicked
Série: Spindle Cove
Páginas: 288.

*Recebi o livro de cortesia da Editora Autêntica/Gutenberg

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Contos da Nova Cartilha: Segundo Livro de Leitura, v.1 de Liév Tolstói


Esse livro reúne histórias escritas por Tolstói para a leitura das crianças que frequentaram uma escola rural criada por ele na Rússia em meados do século XIX. Passeando entre fábulas, histórias verdadeiras e contos, os textos trazem reflexões sobre a vida, sobre as escolhas feitas pelas personagens e os sentimentos que conduzem nossa maneira de se relacionar com o outro.

Apesar do cenário da maioria das historietas ser a sociedade rural da Rússia, elas abrangem questões que tocam alguém pessoa de qualquer lugar do globo porque trata do humano, das relações, o modo como nós lidamos com a perda (O Leão e o Cachorrinho), o dilema entre perdoar ou não a crueldade humana (O índio e o inglês) e a gratidão em meio a algo que te afeta (A veste).

O que mais achei legal nas fábulas contidas no livro foi que Tolstói não colocou nenhuma frase moral explícita antes ou no final da narrativa. Ele deixa livre para o leitor refletir sozinho sobre a ação que se transcorre no enredo e, julgar ou avaliar por si próprio o significativo ou a lição que se pode tirar dela. Para mim isso faz com que a gente dialogue mais com as narrativas e possa se colocar na posição do outro procurando compreender as situações apresentadas do ponto de vista dele ao mesmo tempo em que podemos também pensar se faríamos o mesmo ou se agiríamos de forma diferente.

Cada história é ao mesmo tempo de uma simplicidade e beleza sem tamanho. Depois de ler essas narrativas é difícil ainda acreditar que as fábulas ou contos curtinhos seja ao exclusivo do público infantil. Acho que é uma leitura mais que recomendada para crianças, pais, professores, enfim, todo mundo que primeiro queira conhecer um pouco mais do pensamento de Tolstói, e depois para se encantar, rir e se emocionar com esses escritos tão simplórios e por demais ricos em significado.

Notas da edição lida:
Editora: Ateliê Editorial
Ano: 2013
Páginas: 136
Tradução: Aurora F. Bernardini e Belkiss Rebello



terça-feira, 25 de agosto de 2015

Diário de Leitura: lendo Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister (Livro I)#1

Essa é minha primeira leitura de um texto do Goethe. Antes desse havia dado inicio a leitura de “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, mas na época não consegui terminar (apesar do livro ser bem curtinho) por conta de outras leituras que estava fazendo.  Esse ano eu ganhei de presente o segundo volume livro “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister”, que vem com os livros 5, 6, 7 e 8 da séria composta ao todo por oito livros. Consegui depois os quatro primeiros livros e decidi começar por esse título do escritor porque é um tipo de romance (chamados romances de formação) que chama minha atenção. A ideia de fazer um diário de leitura dele foi porque queria registrar os momentos de aprendizagem do Wilhelm Meister para num futuro reler as impressões que tive sobre ele.

Wilhelm Meister é um jovem apaixonado pelo teatro e pela vida. Um típico romântico, Wilhelm tinha uma visão da vida muito sensível em contraponto com a praticidade que tanto seu pai como seu melhor amigo gostariam de imprimir nele. Nesse primeiro livro o narrador expõe o enamoramento de Wilhelm com uma atriz de teatro, a Mariane. Os dois começam a ter um caso, mas Mariane esconde de Wilhelm (por motivos óbvios) que  tinha um compromisso com outro rapaz.  Norberg, o outro amante de Mariane, viajando, mas já havia enviado uma carta contando que regressaria em breve e tem pouco tempo para decidir com quem vai ficar. Ela ama Wilhelm, mais ele ainda não tinha uma estabilidade financeira, porque queria se dedicar a arte do teatro e não entrar nos negócios de seu pai. Norberg por sua vez tinha dinheiro e poderia mantê-la. Então ela fica num dilema para escolher um dos dois, se com quem realmente ama ou com aquele que pode lhe dar uma segurança financeira.

O amigo de Wilhelm tenta em algum momento dizer a verdade de Mariane para ele, mas Wilhelm, cego pela paixão que sentia, acredita que é mais uma de suas tentativas para tornar pragmático o seu pensamento. Enquanto a gente acompanha essa trama, a personagem do Wilhelm está a todo momento se envolvendo em situações que fazem o leitor pensar sobre o valor das coisas, se aquilo que de imediato oferece algum retorno financeiro ou aquilo que realmente nos dê prazer. Para ele uma pessoa deve seguir aquilo que realmente gosta de fazer do contrário nunca seria feliz.

“Acaso é inútil tudo aquilo que não nos põe de pronto dinheiro nos bolsos, que não nos proporciona um patrimônio imediato? Já não temos espaço suficiente na antiga casa? Era preciso construir uma outra?” (p.9).

Nas últimas passagens do livro a Mariane meio que já faz a sua escolha, muito por causa da influencia da senhora que trabalha para ela (Beatriz), e Wilhelm planeja viajar para tentar organizar sua própria companhia de teatro e depois voltar para se casar com Mariane, só que um suspense quanto a isso paira no ar.


Gostei bastante desse primeiro livro por conta da ponte que a gente consegue fazer até com a nossa sociedade de hoje. O que talvez me incomode um pouco é uma disposição no livro (pelo menos eu senti isso) de fazer do Wilhelm um modelo perfeito de humano, mas isso só irei confirmar lendo os próximos livros da aprendizagem dele na vida. Mas, isso não me fez querer deixar de acompanhar o que próximos capítulos da vida desse romântico e estou curiosa para ver as aventuras e/ou desventuras que vai acontecer com a personagem.

sábado, 15 de agosto de 2015

O Jardim das Cerejeiras - Anton Tchékhov


Nessa peça de teatro acompanhamos a tensão de uma família russa que estão atravessando uma crise financeira.  Os irmãos Liuba e o Gaiév são proprietários de uma casa onde existe um bonito jardim de cerejeiras de onde guardavam boas lembranças dos momentos que viveram ali. Tinham orgulho do jardim por ser muito admirado pelos outros moradores do lugar e meio que representava o símbolo da importância que essa família já teve algum dia. Só que com o passar dos anos acontece uma série de contratempos com Liuba no decorrer da vida que irão comprometer a permanência deles na casa com o jardim das cerejeiras.
No momento que lemos a peça Liuba está regressando a casa trazendo consigo muitas dívidas. Para tentar saldar as dívidas de Liuba a família se vê obrigada a pôr o jardim no leilão. Nos quatro atos em que se transcorre a peça nos vemos como as personagens encaram o conflito, ao mesmo tempo em que vamos descobrindo alguns dos motivos que conduziram a decadência da família até o desfecho da trama.
Esse foi o primeiro texto que li do Tchekhov e gostei bastante da leitura. Com uma escrita simples e direta ele consegue esmiuçar trivialidades do cotidiano dessa família e faz com que nós, leitores, pensemos em coisas que são despercebidas constantemente no nosso próprio cotidiano. Os diálogos são inteligentes, ágeis e ao mesmo tempo em que exploram questões que são pontuais ele explora o instante daquele momento. A gente consegue pensar sobre as ações dos personagens e suas motivações sem julgá-las. Aliás, esse é um dos pontos que mais gostei do texto porque Tchekhov ao retratar as suas personagens ele não os encaixa em “bons” ou “maus”, ele apenas descreve e cabe ao leitor, se quiser julgar seus comportamentos.
O Jardim das Cerejeiras foi a última peça escrita por Tchekhov e muitos criticam o consideram como sua maior obra. A edição que li também traduz outra peça dele o Tio Vânia que trata um pouco da modificação das pessoas diante de situações e do quanto somos imprevisíveis. Gostei muito também. Com certeza fiquei com vontade de ler mais desse escritor russo que retrata a vida de uma maneira peculiar, tanto dramática quanto cômica, tanto previsível quanto surpreendente, com seus heróis e anti-heróis com homens reais.

Dados do exemplar lido:
Editora: LPM
Tradutor (a): Millôr Fernandes
Páginas: 116



terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Amarga Vingança - Andrea H. Japp

O que gosto num romance policial é quando os autores conseguem criar uma narrativa que envolve o leitor de tal modo que o faz se sentir parte do enredo, chutando hipóteses, recriando cenários e sentindo um pouco da adrenalina de quem tenta desvendar os casos. Em Amarga Vingança Andrea Japp conseguiu reunir bem essas características.
Esse é o segundo livro de uma série com a profiler Diane Silver. Considerada uma das melhores capturadoras de serial killers, Diane divide o seu tempo entre solucionar os casos de seu trabalho e tentar encontrar a cúmplice do homem que sequestrou, estuprou e matou sua filha Leonor. Para isso ela própria se junta a Nathan Hunter (Rupert Teelaney), um assassino de serial killers (outro assassino em série?), que de uma maneira estranha e talvez doentia nutre uma simpatia e admiração por Diane. Paralelo à caçada pela mulher que ajudou um psicopata a acabar com a vida de 15 meninas inocentes, incluindo a filha de Diane, temos o aparecimento de três cadáveres numa casa abandonada, que pelo que observa havia sido ação de outro psicopata que encarcerava mulheres para obtenção de poder. Não conto muito do desenrolar da trama porque a graça de ler um thriller é poder ir descobrindo o como foi pensado o crime e as motivações que impulsionaram os criminosos.
No começo da leitura estranhei um pouco o estilo da autora, mas ao mesmo tempo em que gera certa estranheza, logo prende o leitor pela descrição dos assassinatos que acabam deixando o desejo de saber o que ocorreu ali. Quando você se acostuma com a escrita da autora a leitura flui bem. Gostei da construção da personagem de Diane, até me lembrou de Olívia do seriado Law & Order. Como leitora consegui sentir a dor e o desejo de vingança que encobria as ações de Diane. Ela consegue ser inteligente e perspicaz na solução dos crimes sem parecer algo superficial ou inato a ela. Essa humanidade nas personagens é um dos pontos que também apreciei no livro de Japp.
A escrita como já falei é fluída e envolve o leitor. Principalmente depois do aparecimento do caso dos três corpos a leitura se torna mais dinâmica e envolvente. E que final foi aquele? Quando você pensa que tudo estava resolvido, acontece algo inesperado (e que me resoltou na verdade) que me fez ficar pasma com a forma como a autora conseguiu criar um suspense convidativo para o próximo volume da série. No mais, é uma boa pedida para quem curte livros do gênero e gosta de conhecer novos escritores. Narrativa ágil, investigação e surpresa são alguns dos elementos que o leitor encontrará nesse livro.

Sobre a autora:
Formada em Bioquímica, Andrea H. Japp começou a escrever romances policiais a partir de 1990 com a publicação do livro La Bostonienne premiado no ano seguinte pelo Festival de Cognac. Atualmente é considerada como uma das rainhas francesas do crime policial com mais de vinte livros já publicados e bem aceitos pela crítica. Numa pesquisada rápida no Goodreads é possível ver uma boa aceitação de seus livros. No Brasil temos publicado dois dos três livros da serie da Diane Silver pela editora Vestígio.

Notas do exemplar:
Editora: Vestígio (Grupo Autêntica)
Tradução: Fernando Scheibe

Páginas: 268.