segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O Crime do Padre Amaro - Eça de Queiroz


O livro vai um pouco mais além do que o fato principal que move a trama, o crime (ou os crimes) cometido por Amaro. Nele, Eça de Queiroz em todo momento faz duras críticas ao clero e a doutrina cristã que conduzia a sociedade de seu tempo. Ele coloca em questionamento os julgamentos e a ideologia que norteia essa doutrina. O interessante nisso, é que a narrativa não se limita aos protagonistas, Amaro e Amélia, mas cada personagem foi pensado e caracterizado para fazer refletir sobre a crítica a que se propôs Queiroz em seu livro.
Amaro se torna padre por vontade da Marquesa de quem sua mãe era criada. A princípio, a ideia de ser padre lhe atraía. Ele pensava no respeito social que o serviço ao clero inspiravam. Mas depois, antes mesmo de entrar no seminário, foi deixando a “vontade” ou o que seja lá que tinha da ideia de ser padre. Amaro começava a sentir os desejos naturais de um jovem de 15 anos por mulheres, e o querer de não ter sua liberdade reprimida.
“Por esse tempo começava a sentir um certo afastamento pela vida de padre, porque não poderia casar. Já as convivências da escola tinham introduzido na sua natureza efeminada curiosidades, corrupções. Às escondidas fumava cigarros: emagrecia e andava mais amarelo.” (p.20).
Quando entra no seminário, amaldiçoa a marquesa pela promessa que o prendia aquela obrigação. Invejava aos estudantes, por terem sua liberdade garantida, e passou a considerar a clausura do seminário sua própria penitência.
“Sentia, sem as definir, estas perturbações; elas renasciam, desmoralizavam-no perpetuamente; e já antes de fazer seus votos desfalecia no desejo de os quebrar. E em redor dele, sentia iguais rebeliões da natureza: os estudos, os jejuns, as penitências podiam domar o corpo, dar-lhe hábitos maquinais, mas dentro os desejos moviam-se silenciosamente, como num ninho serpentes imperturbadas.” (p.21)”.
Quando enfim se ordena padre, depois de passar um tempo como pároco de uma cidade simples e solitária, ocupa o lugar do falecido padre de Leiria, onde conhece a menina Amélia. Amaro alugara um quarto na casa de Amélia, e começou a participar das reuniões de fim de tarde da casa, tornando-se mais próximo de Amélia e sentindo-se atraído pelos encantos da jovem. Tal atração não passou despercebido por João Eduardo, uma admirador de Amélia que também frequentava a casa, e que até a chegada de Amaro, era quase seu noivo.
Amélia correspondia a atração do padre. E após alguns acontecimentos envolvendo João Eduardo, todos os padres de Leiria e o suposto caso entre a menina o novo padre da cidade, Amaro arruma um jeito dos dois se encontrarem toda semana sem que suscitasse desconfiança. E os encontros acontecem até Amélia ficar grávida. Os dias antes preenchidos pela paixão dos dois são tomados pela preocupação de impedir que houvesse um escândalo na cidade.
A escrita é rica em descrição da personalidade dos personagens e dos lugares em que passam os acontecimentos. Pode até parecer que vendo assim fica meio chato de ler (como no começo achei mesmo, rsrs), mas não. Os acontecimentos são dinâmicos e fazem com o que o leitor queira prosseguir sem parar, só para saber o que vai acontecer. O final não dá para adivinhar, nem mesmo quando você tem quase certeza do que vai acontecer com Amaro e Amélia. Acho injusto o final, mas não por ser ruim, ou mal construído, mas pelo que de fato ocorre. Para quem gosta de clássicos e de livros de romances trágicos é uma ótima dica.

Apreciação: 3

[Sendo que: 1 – Ruim; 2-Regular; 3-Bom; 4-Muito Bom; 5-Adorei]

Dados técnicos:
Editora: Ciranda Cultural
Páginas: 255

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