segunda-feira, 9 de julho de 2012

Lucíola - José de Alencar


“Escrevi as páginas que lhe envio, as quais a senhora dará um título e o destino que merecem. É um perfil de mulher apenas esboçado.” (p. 7).

Em Lucíola conhecemos a história de Maria da Glória, que, por uma situação forçada do destino, torna-se Lúcia, a mais bela e cobiçada cortesã da Corte (Rio de Janeiro). Por seus ex-amantes tinha a fama de ser avarenta e caprichosa. Apesar de toda essa falácia, Paulo, um jovem rapaz de origem humilde que viera a corte construir carreira, não foi convencido a não se render aos encantos da bela cortesã e de negar todos aqueles adjetivos que atiravam sobre ela depois de conhecê-la melhor.
Numa festa da Corte, Lúcia é apresentada oficialmente a Paulo, que logo se encantou da beleza e da expressão doce e tranquila que transpassava do seu ser. Tal surpresa não teve quando seu amigo Sá lhe informou que ela era uma cortesã. Começou então a visitá-la, e depois de um tempo se tornou o amante de Lúcia. Mais do que amantes, entre os dois tornaram-se amigos. E foi assim que Paulo soube olhar Lúcia de outra forma que não só a do desejo carnal. Ele soube ler a alma pura existente em Lúcia. Por vezes não entendia o fato de que alguém com uma alma tão doce pudesse se colocar a dispor de coisas que não queria e que lhe humilhavam. Mas, tudo tinha uma explicação, e Paulo só saberia após um tempo.
Lúcia nutria o desejo de se regenerar. Achava que esse momento tinha chegado quando Paulo entra na sua vida. E então começa a segunda parte do livro, onde Maria da glória conta a Paulo as tristes circunstâncias que a levaram a se tornar Lúcia. Tendo que sozinha arrumar dinheiro para ajudar a família que estava doente, vendeu seu corpo a um homem horrendo que se aproveitou da necessidade que a menina passava para seduzi-la e obter prazeres. Passou por cima da repugnância que sentia daquela situação, somente pensando na melhora de seus entes queridos. Mas, quando seu pai conhece os meios que ela usou para a obtenção do dinheiro que lhe salvara a vida, expulsa a filha de casa, e é então que, sem outra saída visível, torna-se cortesã e consegue por outro fato trocar de nome. Sua situação não lhe trazia prazer, ao contrário, tinha por vezes aversão aos homens com que se deitava.
Seguiu essa vida porque não lhe foram apresentadas alternativas, mas sonhava com o dia em que estaria longe daquilo tudo. Paulo devolvia a ela, a essência pura que nunca perdeu.  Agora, tinha mais um motivo para abandonar a vida que tanto que lhe causara, para nascer de novo e recomeçar longe de tudo aquilo. O livro é escrito pela narração de Paulo, sendo a compilação de cartas que ele enviou para uma amiga senhora, em resposta a sua defesa pelas “infelizes criaturas, que escandalizam a sociedade com a ostentação de seu luxo e extravagâncias. Sua escrita, como todo bom clássico, é rebuscada e prende o leitor pelos detalhes das descrições de percepções que passariam despercebidas, e sendo narrada a partir do momento em que se conhecem.
Como é dito na citação acima, é mais um perfil de mulher de José de Alencar, que, diga-se de passagem, é um mestre nisso. Gosto das personagens desenhadas por Alencar, porque elas nunca apresentam uma personalidade previsível, e suas escolhas são feitas a partir de um conjunto de circunstâncias marcadas por valores morais que impediam sua felicidade. O final não foi muito do meu agrado, porque esperava mesmo outro final para Lúcia. No mais, é Alencar né? O adoro, e a forma como desenvolve suas tramas e sua escrita, penetrando no psicológico dos personagens me encantam.
Ah, e por que o nome Lucíola? Essa foi a pergunta que me fiz quando terminei o livro, e acho que quem leu ou vai ler, fez ou fará a mesma pergunta. Pesquisando na internet, encontrei no site Brasiliana USP (http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/00179700#page/1/mode/1up), um exemplar original da época, onde encontrei a resposta para a interrogação. G.M. (pseudônimo de José de Alencar) a suposta leitora a quem Paulo escreve, explica o título antes de iniciar a obra, em carta de resposta à Paulo, e aqui transcrevo para vocês:

AO AUTOR

Reuni as suas cartas e fiz um livro.
Eis o destino que lhes dou: quanto ao título, não me foi difícil achar.
O nome da moça, cujo perfil o senhor desenhou com tanto esmero, lembrou-me o nome de um inseto.
Lucíola é o lampiro noturno que brilha de uma luz tão viva no seio da treva e à beira dos charcos. Não será a imagem verdadeira da mulher que no abismo da perdição conserva
a pureza d’alma?
Deixem que raivem os moralistas.
A sua história não tem pretensões a vestal. É musa cristã: vai trilhando o pó com os olhos no céu. Podem as urzes do caminho dilacerar-lhe a roupagem: veste-a a virtude.
Demais, se o livro cair nas mãos de alguma das poucas mulheres que lêem neste país, ela verá estátuas e quadros de mitologia, a que não falta nem o véu da graça, nem a folha de figueira, símbolos do pudor no Olimpo e no Paraíso terrestre.

Novembro de 1861.
G. M.

Apreciação: 3
[Sendo que: 1 – Ruim; 2-Regular; 3-Bom; 4-Muito Bom; 5-Adorei]
Dados técnicos:
Editora: Ciranda Cultural
Páginas: 151

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3 comentários:

  1. Parabéns pela resenha Izabela! Muito em breve pretendo ler Lucíola! Beijos!

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  2. Eu já li esse livro e adorei. Gostei muito de como o José de Alencar conseguiu retratar a época de uma forma tão legal.
    Curti mesmo. :)

    Um beijo,
    Luara - Estante Vertical

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  3. parabens pela resenha. acabei de ler o livro e fiz a mesma pergunta. por que luciola?
    rsrrsrsrsrsr muito bom...

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