segunda-feira, 23 de junho de 2014

Fazes-me Falta - Inês Pedrosa


Tanto que eu queria agora dar-te o amor total e infantil que tinha para te dar. Racionei-o a vida inteira coo a porra de um chocolate de leite – por que vivemos como se o tempo nos pertencesse infinitamente, como se pudéssemos repetir tudo de novo, como se pudéssemos alguma coisa? (p. 27).

Fazes-me falta é uma história narrada a quatro mãos. Ela (não é dito o nome dos protagonistas da trama) acaba de falecer e passa a ocupar um lugar especial em algum pedicinho do céu, de onde começa a analisar o modo como viveu aqui na terra e, principalmente, do relacionamento estabelecido com seu ex-aluno e grande amigo.  Ele (o ex-aluno), mais velho que ela narra à dor que sente ao tê-la perdido. Os acontecimentos não são abordados de forma linear e é aos poucos que vamos compondo a relação entre os dois.
Conheceram-se quando ele havia terminado o segundo casamento e matriculou-se no curso de História da Universidade. Ela era uma das professoras da grade curricular e após um trabalho que ele teve que fazer sobre o feminismo tornam-se amigos. A amizade entre eles não ultrapassou os limites desse sentimento, mas eles se amavam e aí que se encontra uma das bonitezas do livro. O enredo toca nessa questão de passar a vida esperando por algo especial, por aquilo que sempre sonhamos, por perder a chance de dizer aquelas coisas que sabemos que precisam ser ditas. A moça, já morta, nos faz entender que se arrependeu de não tê-lo amado como ele a amou. Isso porque antes vir a falecer os dois haviam se distanciado pelas escolhas que ela fez. Queria salvar o mundo, entrou na política e mudou, não só a postura, mas também como se relacionava com os amigos. Não tinha tempo. Ele entendeu, e foi viver sua vida longe dos sorrisos daquela que tanto amava. No discorrer da história os dois abordam por suas perspectivas os mesmos acontecimentos e o que deixaram de viver, e em alguns momentos podemos ver o encontro duas pessoas marcadas por sofrimentos diversos. Um se tornara o alívio do outro, mas não souberem viver aquele sentimento bonito que nasceu entre eles, se deixaram sucumbir pela prioridade (e aqui me refiro muito mais a ela) de um sucesso instantâneo e incerto.
Em alguns momentos, confesso que travei na leitura por causa de palavras truncadas e de uma fluidez rápida de raciocínio que não conseguia acompanhar. Talvez pela escrita ser em português de Portugal algumas gírias e metáforas não consegui captar. Mesmo assim achei uma história muito bonita, a ideia de intercalar as duas vozes foi muito boa porque podemos conhecer a visão de cada um sobre o acontecido em suas vidas. A forma meio em prosa poética de tratar os sentimentos também é um convite a continuar a leitura. É um daqueles livros que nos fazem pensar sobre a vida que estamos tendo e a qual queremos ter. Faz-nos encontrar com nossas próprias falhas e limitações e desejar melhorar para ser alguém melhor, por si próprio e pelos outros que estão perto.

Verifico agora que a minha dedicação ás Grandes causas foi crescendo na proporção inversa da minha decepção com as Grandes Pessoas da minha vida. Tomei a amizade como uma versão adulta e vacinada do amor, o que significa que transferi para a casa dela a artilharia pesada do meu batalhão de afetos. Substituí o Príncipe Encantado pelo Amigo Maravilhoso, que eras tu. Podias ser meu pai, eras o meu discípulo. Nada nos poderia separar, porque estávamos naturalmente livres das armadilhas do desejo, da via-sacra da posse e do sacrifício. Quanta candura. Uma vida inteira desperdiçada em candura – e nem sequer tive tempo para mudar o mundo. (p. 35)

Notas do exemplar:
Editora: Alfagurara

Páginas: 219.

2 comentários:

  1. Oi, Izabela!

    Nunca li nada de Inês Pedrosa, mas tenho vontade.
    Gostei da sua resenha e fiquei curiosa sobre esse livro.
    Se tiver a oportunidade, quero ler!

    Beijos!

    www.oblogdasan.com

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    Respostas
    1. Esse foi o primeiro dela que li Sandra, e tentarei ler outro até o final do ano.
      Obrigada pela visita ao blog.

      Beijos!

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