quarta-feira, 4 de junho de 2014

Razão e Sentimento, Jane Austen



Talvez a tentativa de demonstrar as emoções humanas de forma profundamente real seja o ponto cativante e envolvente da obra de Jane Austen.  Digo isso porque nos romances que já li da autora inglesa, sem exceção, consigo me ver no lugar de alguma personagem, compreender suas escolhas e sentir um pouco da angustia sentida por ela em momentos decisivos da trama. A leitura de Razão e Sentimento me fez perceber isso, além de confirmar a eleição de Jane Austen como uma de minhas escritoras preferidas.
O enredo nos traz a história de um núcleo familiar composto pelo senhor e a senhora Dashwood e suas três filhas: Elinor, Marianne e Margaret. Este era o secundo casamento de senhor Dashwood, e por lei após sua morte todos os seus bens seriam dados ao filho do primeiro casamento. No leito de morte o patriarca da família faz seu filho prometer que não iria desamparar sua mulher e as filhas, destinando-lhe meios para que pudessem sobreviver tranquilamente de maneira confortável e estável. Porém, após o falecimento do senhor Dashwood, seu filho, influenciado por sua esposa (uma mulher extremamente antipática e de sentimentos mesquinhos), reserva uma quantia anual muito pequena para a madrasta e suas irmãs, e ainda faz com que saiam da casa em que viviam, pois era parte da propriedade do pai concedida a ele pelo testamento.
Diante disso as quatro mulheres vão morar num simplório chalé concedido por um parente da ex-senhora Dashwood. A mudança ocorrida nessa família, e os acontecimentos posteriores, vão destacando as figuras de Elinor e Marianne. A primeira sempre guiada pelo bom senso e pela extrema cautela em qualquer mínima ação. Elinor conseguia encobrir seus sentimentos de tal maneira, que todos a consideravam fria demais para amar. Eis que aparece Edward, e logo de início demonstram um pelo outro uma afeição sincera, a maneira dos dois. O único defeito de Edward era ser irmão da mulher do novo sr. Dashwood. Esse “pequeno” fato é motivo suficiente para que fosse estabelecido um empecilho para o amor dos dois, acrescido a isso, Edward era tão reservado como Elinor, e isso, junto com outro obstáculo que só conhecemos no meio da história, impedia-o de declarar seu amor.
Enquanto Elinor era sinônimo de preocação Marianne, a maior parte do tempo, não conseguia agir como a irmã. Suas ações eram guiadas pelas emoções e impulsos típicos da juventude, principalmente quando é salva por Willoughby. Nesse momento, acredita ter encontrado o príncipe encantado, e um bom casamento. Apaixonou-se por ele e tinha certeza de ser correspondida nesse sentimento. Isso até o momento em que começa a ser ignorada, sem explicação alguma pelo nobre cavalheiro.

Elinor, a mais velha, [...] era dotada de grande força de compreensão e frieza de julgamento, o que a habilitava, a despeito de seus 19 anos, a ser conselheira da mãe, e lhe permitia com frequência, para o bem de todas, contrapor-se ao espírito veemente da sra. Dashwood, o que em geral a podia levar aos caminhos da imprudência. Tinha um coração magnânimo, era afetuosa de espírito e forte de sentimentos, sabendo bem como governá-los: conhecimento que a mãe não dominava ainda e que uma de suas irmãs se recusava terminantemente a aprender.
As qualidades de Marianne eram, sob muitos aspectos, iguais às de Elinor. Era inteligente e sensível, mas agia em tudo com intensidade; suas dores, suas alegrias não tinham meio-termo. Era generosa, amável, interessada: tudo, menos prudente. (p. 12).

Em meio as diferenças de comportamento das irmãs, no desenrolar da trama e nas situações inusitadas que vida apresenta a elas, começamos a perceber que o jeito de ser de uma não é somente razão ou tão somente sentimento, como ocorre com todo ser humano. Como resultado dos abalos que sofrem e das circunstancias jamais imaginadas, elas conseguem assumir o lado oculto de suas personalidades, além de fortalecem a aproximação entre elas. Acredito que esse é um ponto chave do livro, o fato de que somos muitos num só e que podemos deixar isso transparecer ou não dependendo do momento, das situações e de nossa força.
Elinor foi de longe a minha personagem favorita da história, e foi com ela que senti as dores e a alegria de ser como era. Diante de tudo que enfrenta Elinor consegue cativar sendo o que ela é, e apenar de ser o lado da razão, conseguimos perceber nela aspectos de uma sensibilidade sem tamanho. Tão grande que chegamos a ter um apertinho no coração nas cenas em que o que talvez ela mais quisesse fosse extravasar seus sentimentos, mas não podia. O livro é composto disso, essa mistura de humanidade gritante e emoções conflitantes. E essa composição é mais que suficiente para pegar o livro e deixar-se seguir até a página final. Concordando com as palavras de Calvino de que “É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível, ler Razão e Sentimento é pensar sobre nossas condições de existir e de demonstrar essa existência ao mundo. É entrar em contato com um passado tão distante que nos espanta por se mostrar tão atual.

Não são o tempo nem a oportunidade que determinam
a confiança; só a índole o faz.
Para algumas pessoas, sete anos não seriam suficientes para
solidificar uma amizade, ao passo que para outras,
bastam apenas sete dias. (p. 61).
Notas do exemplar:
Editora: Saraiva de Bolso/ Nova Fronteira
Tradução: Ivo Barroso.

Páginas: 364.

5 comentários:

  1. Izabela, eu tenho um problema em ler Jane Austen, juro que tentei 3 vezes ler Razão e Sensibilidade, mas sua resenha tá linda! Talvez daqui uns anos tente de novo ler este livro.

    Desejo ótimas leituras!
    Beijos,
    Jéssica, d´O Feminino dos livros (http://ofemininodoslivros.blogspot.com.br/)

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    1. Sou meio suspeita para falar de Jane Austen porque gosto muito dela. Espero que possa um dia se deliciar com algum de seus romances.

      Beijos!!

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  2. Oi Izabela, tudo bem?

    A Jane Austen sempre me encanta, concordo contigo, a autora encanta ao narrar a respeito de personagens "normais", repletos de dúvidas e medos, que erram como nos erramos.
    Achei bacana você mencionar de "somos muito em um", pois isso é algo que sempre percebo nos livros da autora. Por exemplo, em Orgulho e Preconceito ambos personagens centrais são orgulhosos e preconceituosos.

    Ainda não li esse livro, mas está na minha meta desse ano.

    Beijos,

    Pah - Livros & Fuxicos

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  3. Tudo bem sim Paola!
    É bem isso mesmo em Orgulho e Preconceito, não tinha ainda feito essa ligação. Você vai adorar o livro e depois veja o filme, é muito bonito e bem fiel ao livro.

    Beijos!! :)

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  4. Olá!!

    Até o momento o único livro da Jane austen que li foi o Persuasão e não gostei taaanto quanto eu imaginava ( e esperava). Ainda não sei se foi culpa das minhas expectativas ou se não me dei bem com a leitura, entendo que ainda preciso ler pelo menos mais uns dois livros da autora para afirmar se gosto ou não da sua narrativa e o Razão e Sentimento é um dos que estou pretendendo ler como "tira teima".

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